Sequestro vira pauta ideológica

Sequestro vira pauta ideológica

EDITORIAL
O sequestro de um ônibus, ocorrido no Rio de Janeiro, mobilizou grande parte da mídia, hoje com totais condições de realizar uma cobertura em tempo real. E assim, na medida em que transcorriam as negociações lideradas pelo Bope, comentaristas de vários matizes se intercalavam fazendo acenos ao passado para jogar luz no presente. Enquanto isso surgiam algumas informações novas, antes da prisão do marginal, e uma delas paralisou uma bancada com viés de direita na televisão: “Está tudo explicado”, disse um analista: “o bandido cumpre pena no regime semiaberto e deveria estar monitorado por tornozeleira eletrônica”. Essa mesma bancada, há semanas, apoiou recente medida aprovada em primeira votação pelo senado, que restringe de maneira mais objetiva as chamadas “saidinhas” do sistema prisional, e observem, como são as coisas. Do alto da noite, durante a transmissão do telejornal J 10, pela Globo News, um repórter fazia uma intervenção ao vivo, diretamente da rodoviária, por volta das 22:30h, quando um cidadão parou ao seu lado e disse com todas as letras: “A Globo apoia a saidinha de bandidos”. Imediatamente a transmissão foi cortada, a imagem voltou para a âncora do programa que, sem graça, só teve tempo de dizer: – Que pena uma pessoa atrapalhar o trabalho de um profissional. De fato, um crime que remonta outros episódios trágicos desenvolvidos no Rio de Janeiro, por si foi suficiente para chamar a atenção de todo o país, mas a partir do momento que o criminoso foi identificado como beneficiário do semiaberto, as explicações oferecidas pelo delegado, dando conta da motivação e da confusão feita pelo bandido, passaram a ser apenas detalhes. A discussão da progressão da pena e os mecanismos para a liberação condicionada de presos assumiram o protagonismo do debate, que certamente continuará nos próximos dias. Isso é apenas mais uma constatação de como a polarização ideológica segue firme e forte, ajudando a explicar a queda de popularidade do presidente Lula, inclusive em São Paulo. Em resumo, o amor ainda não venceu.

Roberto Lucato

Ilustração: Freepik

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