Senso&Consenso

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Eu estou me rendendo, Humberto Eco tinha razão

Antonio Claudio Bontorim
Jornalista
LIMEIRA
claudio.bontorim@tribunadelimeira.com.br

“As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel” [Humberto Eco, escritor e filósofo italiano]

A praga das notícias falsas, ou como é chique dizer, as fake news, estão voltando com tudo às redes sociais, a grande ferramenta da imbecilidade, como escreveu certa vez o filósofo e escritor italiano Humberto Eco.
De início, não concordava muito com o autor de O Nome da Rosa e Apocalípticos e Integrados, mas mudei de opinião. Enquanto representa um avanço na liberdade de expressão, também é um retrocesso pela falta de regulação, que ajudaria no controle às vozes que disseminam a desinformação.
Liberdade de expressão é um direito bem diferente, daquilo que pregam esses “imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade”, definidos por Eco.
E quanto dano causam. Não percebem, ou se percebem pouco se importam.
Confesso que ando bastante assustado com o aumento da circulação de notícias falsas e desinformação, que veem sendo veiculadas, novamente, pelas mídias sociais. E como se não bastasse desinformar, gostam de se gabar daquilo que escrevem, como se fosse expressão de uma verdade pura, na qual só eles acreditam. E querem fazer outros acreditarem.
Há pouco mais de uma semana, um amigo de infância, que não vejo há tempos imemoriais, postou mais uma dessas mentiras. Uma desinformação sobre vacinas, como se fossem um mal.
Na postagem, esse amigo, um admirador convicto de Jair Bolsonaro, divulgou que uma vacina havia provocado hematomas e outros problemas e mostrava, justamente, uma jovem, sendo imunizada num posto de saúde.
Cansei-me em tentar provar que muitas de suas postagens não representavam a liberdade de expressão, mas um desserviço à própria sociedade. E de fácil comprovação.
Tanto se falou em efeitos colaterais, danos irreversíveis, doenças associadas ao câncer e até mesmo à propagação da Aids, que a vacina provocava – o próprio Bolsonaro, enquanto presidente, chegou a afirmar que a vacina contra a Covid-19 era um desses efeitos – que estimulou os grupos antivacina pelo país.
A cobertura vacinal, de quase todos os imunizantes do PNI (Programa Nacional de Imunização), muitas das quais são aplicadas há quase sete décadas – ou mais – caiu vertiginosamente. O sarampo, que antes o Brasil havia erradicado, voltou. A poliomielite, também pode voltar a qualquer momento. E assim por diante.
Tudo por que essas notícias falsas; desinformações que às vezes partem de médicos e outros profissionais da saúde, viralizam e acabam tendo graves consequências.
Este é, infelizmente, um exemplo clássico. E um exemplo diário, infelizmente, da imbecilidade proposta por Humberto Eco.

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