Senso & Consenso
As pernas curtas da mentira e a verdade que conduz a história
Antonio Claudio Bontorim
JORNALISTA
claudio.bontorim@tribunadelimeira.com.br
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) se tornou réu no STF (Supremo Tribunal Federal) pela tentativa de um golpe de estado orquestrado entre dezembro de 2022 e janeiro de 2023. Ação golpista, esta, que o próprio réu já exalava como um cheiro, desde que foi eleito em 2018 e ao longo dos quatro anos de seu mandato presidencial. E a partir de 2021, com ataques cada vez mais frequentes ao Poder Judiciário e, ainda, no último ano de seu mandato, quando começou a sentir que perderia a eleição para Lula (PT).
Cheiro do golpe que vinha dos acampamentos em frente aos quartéis militares. E que culminou com a invasão das sedes dos Três Poderes, em Brasília-DF, pelos acampados em frente ao quartel general do Exército, engrossado pelas diversas caravanas de todo o país, bancadas total ou parcialmente por empresários. Muitos desses invasores já estão condenados e outros são fugitivos ou estão presos em outros países, como a limeirense Michely Paiva Alves, detida como imigrante ilegal nos EUA, um dia após a posse de Donald Trump.
Tudo isso era perceptível nas suas falas e ameaças constantes, mas nunca cumpridas justamente pela falta de coragem que sempre foi sua marca registrada, e nos ataques que fazia em atos públicos idênticos às manifestações que sustentaram Adolf Hitler à frente de uma Alemanha nazista insana e que aspirava ao comando das nações da Terra. Evidentemente ele não tinha o carisma e a percepção de Hitler e nem queria dominar o mundo, mas levar o país de volta à escuridão, como o fez, tornando o Brasil um pária internacional.
Bolsonaro tinha um plano, uma turba de fanáticos à sua volta e uma pseudo-Elite que sustentava sua vocação ditatorial e também suas excentricidades de presidente da República. Ou seria um não-presidente, justamente por causa disso? Enfim! Faltava-lhe, entretanto, inteligência para mobilizar de forma efetiva esses idólatras, pois suas palavras morriam ao vento e, sempre que confrontado – para sorte da democracia – recuava e desdizia o que disse. Ou negava o que tinha dito.
O Mito, como era tratado, também prescindia das boas práticas de administrar o país, de contornar crises de forma eficaz, como o fez (ou não nada fez) durante a pandemia da Covid-19, negando sua existência e também a Ciência. Relegou os mais de 700 mil mortos brasileiros às covas rasas e fazia troças dos enfermos, que sucumbiam diariamente em leitos improvisados ou hospitais de campanha, que só funcionaram por que os governadores se mobilizaram.
Bolsonaro disseminou e viveu sob mentiras. Propagou desinformação, como se fosse a verdade e, por isso, sucumbiu. Sucumbiu na tentativa de golpe, pelo qual agora deve pagar, vendo o sol nascer quadrado e sem direito a jet-ski e praia. Sucumbiu ao tentar reunir milhões numa manifestação e agora sucumbe perante o Supremo, vítima de suas próprias mentiras e de seu ego.
Bolsonaro não representa a direita brasileira. Ele se representa e a seus interesses pessoais e de sua família. Não tem ideologia e nem responsabilidade com programas políticos, a não ser inflar-se a si próprio, como líder que não é.
Prova disso é que ele voltou à carga contra o STF, fazendo-se de vítima de uma perseguição que não existe e chorando suas mágoas. Não deixa, entretanto, sua conhecida arrogância, quando diz que em 2026 terão três candidatos possíveis da direita, o “Jair, o Messias ou o Bolsonaro”. Não cita possíveis substitutos. Ele não quer sucessor nenhum e quer apenas um espelho par enxergar-se refletido e poder se contemplar e a seu ego, como Narciso.
A direita brasileira, entretanto, e muito provavelmente, não vai ter a paciência que o PT teve. Vai começar a abandoná-lo, como já vem fazendo lentamente, buscando outras lideranças. Já sabe, de antemão que não vai poder contar com o seu Mito, que não se assume como derrotado e joga toda a culpa em outras pessoas, principalmente em seus principais aliados. É, sobretudo, um traidor daqueles que mais o defenderam.
Assim como Narciso, Bolsonaro vai ficar preso no espelho dessa sua arrogância e de suas mentiras, até a Polícia Federal bater à sua porta, levando-o para uma cadeia de verdade. O Mito está se desfazendo pelas próprias mentiras e a cada pronunciamento, live ou qualquer novo cercadinho que ele crie, esse derretimento será maior. E não poderá contar com sua frase preferida, “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, pois ele apenas semeou mentiras.
E as pernas curtas dessas mentiras acabaram levando-o à condição de réu. Já, a verdade, não o libertará, mas será sua condução ao presídio e se tornará a chave de uma cela fria. Pois é a verdade quem conduz a história.
Vale aqui, para finalizar, uma citação da música de Chico Buarque, Funeral de um Lavrador, que foi trilha sonora do filme Morte e Vida Severina (da obra de João Cabral de Melo Neto): “Esta cova em que estás, com palmos medida… dessa terra que querias ver dividida… é a parte que te cabe neste latifúndio”.