Mais ofensas e menos gentilezas
EDITORIAL
A pessoas não se dão conta, mas o mundo mudou, e muito. Hoje em dia, uma pessoa que levou anos para construir uma boa imagem, uma identidade consolidada, isso do ponto de vista pessoal e profissional, pode ver decretada sua ruína se cometer um deslize que venha a viralizar nas redes sociais. Como sempre argumentei, um criminoso não sente nada ao ser condenado a 20 ou 30 anos de cadeia; porém, se um cidadão de bem passar uma noite em uma delegacia, talvez depois de consumir uma lata de cerveja, esse trauma o acompanhará o resto da vida. É que vivemos tempos der inversão de valores. No futebol, por exemplo, não existem mais craques; existem empresários melhores ou piores. Na música, se a Bossa Nova rivalizou com a Jovem Guarda, hoje os MCs da vida entorpecem a juventude com ritmos macabros, músicas feitas com duas notas e quatro batidas de bumbo. Não há mais humor na televisão e, quem ainda depende dos canais abertos, assiste apenas competições comportamentais, shows de prêmios e recortes filmados e jogados no WhatsApp. A política também mudou. Os jovens representantes dessa categoria, absolutamente guiados pelo número de seguidores, não titubeiam mais quando possuem uma chance de enfrentar alguém. Mesmo que isso não dê votos, apenas “likes”. O ministro Fernando Haddad, por exemplo, mesmo relativamente novo, tornou-se jurássico para esse grupo: ao chamar de molecagem o comportamento de alguns deputados, recebeu o “troco” em poucos minutos, de maneira acintosa e agressiva. Ora, goste-se ou não dele, de suas taxas e tudo o mais, trata-se de um ministro de Estado. Deveria impor e receber respeito. Mas não. Ninguém se importa mais com os limites de uma ofensa. Ninguém quer saber se a pessoa tem família ou não. Ninguém dá a mínima para cargos e protocolos. Esse é o retrato de uma sociedade falida, em decomposição como está, em especial, a brasileira. A regulação das redes vem aí. Para restringir a liberdade de expressão? Ou para atenuar um problema gravíssimo que elas mesmas causaram? Com todo o respeito, as pessoas não morrem apenas quando um coração deixa de bater; quando elas perdem a honra e a dignidade pelo meu uso dessa mesma liberdade, também.
Roberto Lucato
Ilustração: Freepik
