Etiqueta digital

Etiqueta digital

EDITORIAL

Os ocidentais, latinos em particular, não lidam bem com as mortes de uma maneira geral. Exceção feita aos mexicanos, os outros povos parecem não aceitar bem o desfecho certo de uma existência. Há, inegavelmente, situações que agravam este sentimento, como a prematuridade, mas em geral tendemos a encarar o luto como um período de inesgotável tristeza. Pequenas mudanças, no entanto, começam a se incorporar no seio de muitas famílias, como a “celebração”. Por óbvio, ninguém “comemora” a partida de um ente querido, mas revisitar uma trajetória pode aproximar uma pessoa enlutada com os melhores momentos compartilhados. Isso não é simplesmente “relembrar”, mas fixar na memória os mecanismos da construção de alguém que amamos ou admiramos. Por outro lado, minimizar os efeitos de uma partida também deve ser considerado, acima de tudo por uma questão de respeito ao semelhante; isso oferecerá, em vida, uma agradável sensação de dignidade. Estamos muito distantes de alterar todas essas situações, mas nos velórios, em especial, a “última despedida” também integra esse “pacote”. Se há muito tempo as “carpideiras” deixaram de ser um elemento obrigatório, é crescente o número de comportamentos inadequados nos chamados velórios. Não cabem, nestas ocasiões, comentários exacerbados, cumprimentos efusivos, anedotas e, isso é inconcebível, filmagens ou registros fotográficos, exceção feita aos profissionais de imprensa desde que estejam autorizados para tal. O velório da cantora Preta Gil ofereceu mais uma prova de como a nossa sociedade está doente, a ponto de uma veterana jornalista se pronunciar, em suas redes sociais, sobre pessoas que participaram das cerimônias apenas para produzirem “recortes”, enquanto deveriam estar meditando ou orando. Ela está corretíssima, e isso tem a ver com aquilo que discuto há muito tempo: além de discutirmos a regulação das redes, a chamada “etiqueta digital” deve ser pensada em paralelo. Limpar o nariz com os dedos durante uma refeição não é crime, nem contravenção: é feio. Como mastigar com a boca aberta, coçar os dedos dos pés em público ou arrotar alto depois de um copo de Coca-Cola. O uso de celulares exige parcimônia e, acima disso, boas maneiras, como se dizia antigamente. Filmar velório? Que sociedade é essa?

Roberto Lucato

Ilustração: Freepik

 

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