Eleitores pendulares sempre querem mais
EDITORIAL
Bem antes da reeleição ser possibilitada no Brasil, mandatários que não conseguiam emplacar seus indicados tinham uma imensa dificuldade para encontrar explicações plausíveis para o fato. Reza a lenda que, atribuía-se uma derrota ao fator “querer mais” dos eleitores. Vamos explicar. Quando um prefeito, por exemplo, cumpria um bom mandato e indicava alguém de sua confiança para sucedê-lo, muitos eleitores desconfiavam que o candidato poderia fazer, no máximo, o mesmo. Por isso, e com esse raciocínio, escolhiam o adversário: “quem sabe o outro pode fazer algo mais, que não conseguimos?”. A lembrança dessa máxima decorre dos apuros em que está o presidente Lula; o instituto Genial Quest acaba de identificar a quarta queda seguida de sua popularidade, mas existem detalhes mais desencorajadores para ele. Pela primeira vez, em dois anos, a maioria dos entrevistados apontou como “melhor” o governo anterior, e mais. Expressiva parcela da população não se diz mais beneficiada com os conhecidos programas assistenciais do presidente, incluindo algo em paralelo. Boa parte dos entrevistados também não se disse atingida pelo aumento do teto do desconto do imposto de renda, isso porque ganham menos de três mil Reais e já eram isentos. O entorno do presidente, ouvido ontem por setoristas que acompanham o Palácio do Planalto, minimizou as notícias ruins, dizendo que só agora, com os problemas devidamente apurados pela Secom, campanhas institucionais mais fortes terão seus efeitos medidos em pouco espaço de tempo. Mas, e se os antigos eleitores estiveram de volta, ou seja, será que os apoiadores do presidente, incluindo moradores da região nordeste, desconfiam que ele não tem mais a entregar? Enxergam que as políticas públicas em vigor não serão excluídas por eventuais sucessores? Lembrando: o PT sempre usou, contra seus adversários, a possibilidade da extinção do Bolsa Família caso Lula não fosse presidente ou alguém de seu entorno. Isso funcionaria agora, uma vez que a pesquisa identificou que isso dificilmente ocorreria e que nem todos estão tão interessados assim? Esse é o ponto: os eleitores mudaram. A direita, que segue dominando as redes sociais, continua atuante e o presidente, por mais que possa querer, exibe dificuldade em atualizar o seu discurso. Ou seja, nem sempre aquilo que ele achava que o povo queria, é o que esse mesmo povo quer agora. Uma situação ainda complexa, mas compreensível. E explicável.
Roberto Lucato
Ilustração: Freepik