Cancelar o que não existe

Cancelar o que não existe

EDITORIAL

Informa a secretaria de Comunicação da Prefeitura de Limeira que, por razões orçamentárias, não haverá carnaval popular neste ano. Diz o comunicado, “de acordo com o secretário municipal de Cultura, Silvio Britto, houve um diálogo com o setor cultural envolvido na organização da festa para apresentar o quadro enfrentado pela administração”. Segundo ele, “nós entendemos que o carnaval é importante para alguns setores da economia, com geração de empregos em cadeia. Por isso, o nosso compromisso é reorganizar as contas públicas de 2025 para em 2026 planejar a retomada da festa”. É compreensível sua argumentação, porém, existem outros motivos. O pai do atual prefeito, quando iniciou seu primeiro mandato, fez o mesmo, diante de um quadro de aperto financeiro, segundo explicações de Silvio Félix, à época. Na verdade, herança de “restos a pagar” do governo José Carlos Pejon, mas outro motivo, não oficial, foi especulado. É que, Silvio, durante o processo eleitoral, recebeu grande respaldo do eleitorado evangélico, claramente pouco envolvido com esse tema; ao fazer isso, além de economizar, ele atendeu a uma pauta que lhe era cara. Não se pode dizer, nem durante a primeira medida, tampouco nessa ocasião, que as decisões abalaram as cotações do dólar. O carnaval popular de Limeira está adormecido há pelo menos três décadas e um último suspiro ocorreu quando se tentou – sim, a palavra é essa – dirigir parte dos recursos da secretaria de Cultura para alguns núcleos e oficinas remanescentes das antigas escolas de samba da cidade. Não deu em nada porque, pessoas que se envolveram com os carnavais de rua ou em salões, envelheceram e se cansaram, sem que tivessem tido tempo ou disposição para formar sucessores. Na verdade, já faz alguns anos que o ponto alto das folias de Momo, em Limeira, ficou restrito aos bailinhos da terceira idade, por sinal frequentados à exaustão pelo Imperador Mário I. E, honestamente, é uma festa contagiante porque o seu público possui as derradeiras memórias das tradicionais marchinhas que ainda são lembradas eventualmente. Como tive a sorte de ouvir, há um ano, em Paraty. Naquele município do litoral carioca pequenas escolas ainda se arriscam a desfilar pela avenida principal, porém, ao som de trios elétricos, sendo algo muito rápido. Em pouco menos de duas horas está tudo encerrado, até pelas pequenas dimensões do chamado centro histórico. Limeira sem carnaval popular não é nenhuma novidade, como também parece ser a linha adotada pelo atual prefeito, seguindo à risca os passos dados por seu pai. Começou com as revelações da crise financeira, passando agora pelo carnaval e dessa forma caminha a humanidade. Assim fica fácil adivinhar seus próximos passos.

Roberto Lucato

Ilustração: Freepik

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