Alimentação, ainda um problema

Alimentação, ainda um problema

EDITORIAL

Existem determinadas cenas que eram bem comuns no passado, hoje nem tanto. Por exemplo, um carrinho de supermercado lotado passando pelo caixa. Quem viveu o Plano Sarney e foi um dos fiscais do ex-presidente se lembra bem do tempo das remarcações quase diárias. Mais tarde, no Plano Collor, havia aquelas tabelas infernais de conversão; bem, o fato é que o peso da alimentação no orçamento de qualquer cidadão sempre será importante e isso determinará, inclusive, o seu humor. Porém, o fenômeno da pandemia trouxe novos elementos neste contexto, e não apenas o encarecimento de tudo de uma forma geral, e em todo o mundo. O tal “fique em casa, a economia a gente vê depois” fez nascer serviços facilitadores de entrega de alimentos e refeições, entre outras facilidades. Quem levou ao pé da letra o confinamento passou a comprar tudo pelo celular: remédios, roupas, equipamentos e… comida. Minha vizinha de frente, por exemplo, não saia de sua casa para absolutamente nada; havia dias em que pequenos congestionamentos de entregadores se formavam na sua garagem. O resultado foi que engordou bastante e até hoje, entregadores do IFood buzinam dia sim, dia não. Nos supermercados, vale lembrar, os serviços de entrega funcionaram a todo o vapor durante a pandemia e até hoje me pergunto: fazer uma compra mensal, por exemplo, é mais econômico pelos aplicativos, quando não recebemos apelos sensoriais das gôndolas? Voltando ao preâmbulo dessa reflexão, as chamadas “compras do mês” caíram em desuso faz um tempão, porque os consumidores preferem esperar pelas ofertas. Durante a quaresma, por exemplo, os preços das carnes bovinas estão sempre entre elas, o que não se pode esperar com os pescados. Mas na semana passada, um casal me surpreendeu ao passar um carrinho lotado pelo caixa. Que me lembre, eram caixas e caixas de leite, pacotes de macarrão, farinha, litros de óleo, gelatinas, embalagens de sabão em pó, enfim, tudo o que geralmente uma família utiliza para preparar refeições e manter suas roupas limpas. Minha curiosidade me fez aguardar pela totalização da compra: o casal teve que deixar quase sete notas de cem Reais no supermercado. Sim, ainda faltaram as frutas e verduras, além das proteínas, mas eles deixaram meio salário-mínimo ali. Até hoje me pergunto se aquela compra daria para um mês, ou uma ou duas semanas e, voltando, se pela internet eles comprariam menos, mas essa é a realidade: abastecer uma despensa, há décadas, tem sido um sofrimento, e não um ato de prazer. Uma pena.

Roberto Lucato

Ilustração: PML

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