Senso&Consenso

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A história política do Brasil sendo passada a limpo

Antonio Claudio Bontorim
JORNALISTA
claudio.bontorim@tribunadelimeira.com.br

Hoje é um dia histórico para a política brasileira. Este 2 de setembro de 2025 representa uma viagem ao passado dos golpes e tentativas de candidatos a ditadores e ditadores em potencial em se perpetuar no poder, desde a proclamação da República.
O que está em jogo não é apenas a intenção de um grupo de ressentidos com a democracia, mas a tentativa de fazer valer, à força e com requintes de traição explícita de brasileiros, que acolheram um mito que de mito não tem nada, com uma promessa inexequível de Deus, Pátria e Família. Tão inexequível como foi o Movimento Integralista, que aliás tinha o mesmo lema como mote para atrair incautos e ignorantes.
O julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) que está começando agora, envolvendo o núcleo crucial da tentativa de golpe de estado iniciada em 2022 – alguns já acreditam na sua existência desde 2018 – que tem, entre eles, o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (PL), é a inequívoca oportunidade que o país tem de acertar as contas com o seu passado e passar a limpo as várias tentativas e as ditaduras consumadas.
A de 1964, a pior delas, e que durou 21 anos, é o melhor exemplo de um regime, que prendeu, torturou, matou e desapareceu com muita gente que a contestava e lutava contra ela. Diferente do que tentam fazer acreditar os artífices de uma retórica, que afirmam justamente ser hoje que o país vive um regime totalitário e que desrespeita os direitos humanos. Não entendem nada de direitos e muito menos de humanos.
Quem acredita nesse discurso e espalha essa desinformação ou se assume de vez como golpista, que de fato o é, ou assina seu atestado de ignorância em relação ao que seja, de fato, um regime ditatorial. Os torturados ainda vivos, que trazem no corpo as marcas dessas sevicias, os mortos e desaparecidos ainda fazem muita sombra aos ideais da verdadeira democracia.
E essas sombras só receberão a devida luz do sol e poderão livrar da escuridão esse passado, com a punição dos golpistas de hoje, entre eles coronéis, generais e tantas outras patentes do oficialato brasileiro, ainda impunes pelos crimes de outrora.
Não, não foram eles que os cometeram, mas conviveram e foram omissos com a brutalidade.
Agora é chegada a hora de o Brasil mostrar ao mundo que sua democracia está sólida. E é justamente esse exemplo que as democracias que ainda respiram, hoje muitas delas sobrepujadas pelas autocracias, esperam da Nação brasileira. Aqui, o “N” maiúsculo da palavra nação é um grifo deste autor que vos escreve, para consolidar a realidade brasileira.
A viralatice – no sentido Rodrigueano da palavra* – ainda é bem acentuada na alma do brasileiro, que acredita que tudo que vem de fora é bom e o que está aqui é de péssima qualidade. E vive naquele tempo do “o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”. Nunca foi e nunca será!
Agora menos ainda, pois nosso coirmão do norte respira hoje mais uma autocracia do que uma democracia. Uma autocracia de “atos executivos” assinados por Donald Trump, sem passar pelas casas legislativas. E os legisladores brasileiros se insurgem contra o Judiciário, por que aqui não legislam a não ser em causa e benefício próprios.
Enfim, é chegada a hora de mostrar ao mundo aquilo que não conseguimos mostrar, quando ruiu a ditadura militar, sem qualquer punição aos criminosos de Estado. As polícias dos porões fétidos e escuros, e seus oficiais e executores.
É hora de somarmos aos nossos vizinhos sul-americanos, como Uruguai, Chile e Argentina, e encarcerar esses criminosos de uma vez por todas. É bem verdade que o Uruguai teve uma lei de anistia parecida com a brasileira, que perdoou a todos, mas posteriormente a corrigiu. O Brasil ainda não fez essa correção e pode fazer agora.
Argentina e Chile levaram ao cárcere generais do porte de Jorge Rafael Videla, assim como Augusto Pinochet, respectivamente. Videla, inclusive morreu na prisão.
Peru e Paraguai também viveram suas ditaduras. Uma civil, no Peru, com Alberto Fugimori, que sofreu impeachment, foi condenado, fugiu e foi preso em seguida, morrendo em 2024. E outra, no Paraguai, em golpe de estado, que em 1954 e que durou até 1989, com o general Alfredo Stroessner, que veio viver em exílio no Brasil, onde morreu em 2006.
No Brasil, todos daquele período já morreram – pelos menos os generais – e outros tantos foram condenados após a atuação da Comissão Nacional da Verdade, que gerou ações no Ministério Público. Uma verdade que ainda não apareceu cristalina e, durante os quatro anos do agora réu Jair Bolsonaro na Presidência, também foi deixada de lado, pelas próprias intenções golpistas do agora ex-presidente.
Este é um breve relado de idas e vindas de golpes e contragolpes, mas que ainda têm herdeiros e órfãos espalhados, que precisam ser exorcizados da política. De uma vez por todas.
Então, vamos acompanhar, de hoje até o próximo dia 12, todos os acontecimentos, conscientes daquilo que o Brasil tem de real necessidade e na esperança de, de fato, passar a limpo todo esse período nebuloso. Que ainda faz sombra e precisa de muita luz!

*A síndrome do vira-latas foi criada pelo jornalista e então cronista esportivo Nelson Rodrigues, após a derrota do Brasil para o Uruguai, na Copa de 1950 no Maracanã.  Rodrigues se tornaria, posteriormente, um dos maiores dramaturgos brasileiro, apesar de sua tendência confessa à direita. Hoje esse termo é considerado de uso politicamente incorreto, mas é o que temos para esta análise.

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